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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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24/09/2007 ..

Viver cozinha...



Hoje tem aula na casinha laranja à beira do canal. Como sempre, iremos cozinhar, dançar e expulsar as neuroses! É um dia de encontros, trocas e liberdade. Não que cada um possa fazer o que bem entende! Não me entendam mal! A idéia do T&D é simular um verdadeiro dia de trabalho dentro de uma cozinha profissional e isso tem lá as suas limitações.

Primeiro temos duas horas de aula teórica, onde eu explico e executo as receitas que serão preparadas para o jantar daquele dia. Depois de um breve intervalo e um lanchinho - tipo recreio de escola! - escalo as equipes e todos voltam para a cozinha para executar as suas tarefas. Tarefas essas que têm um tempo estipulado para serem executadas, porque não há possibilidade do jantar atrasar! Imagine se um cliente faz uma reserva para 20h, senta, pede um vinho e logo em seguida o garçom o informa: senhor o seu jantar atrasará porque a cozinha não conseguiu terminar o mise-en-place a tempo! Não, essa possibilidade não existe em nossas vidas!

Enquanto todos executam as suas tarefas, minha “sudequipe” auxilia nas preparações e eu controlo tudo e... danço! Essa é a única concessão que fazemos à realidade de uma cozinha profissional. Se bem que no sábado, atendendo 50 pessoas ao mesmo tempo, todos degustando um menu de dez pratos, nós bem que entoamos uma modinha!

Isso entre um grito e muitos outros!

Isso é: viver cozinha!

E é bom demais. Eu garanto e assino embaixo!

Até!
26/09/2007 ..

Um dia fora da cozinha... para variar!



Estive em São Paulo participando de um evento interessantíssimo sobre criatividade. Apesar de considerar meu processo criativo solitário, foi interessante experimentar a sensação de falar, sentir e expressar esse processo de maneira coletiva. Um exercício saudável, sem dúvida.

Apesar disso, voltando para a cozinha, ainda insisto, que o momento solitário, aquele que ontem intitulei como o instante da criação, é na minha opinião muito íntimo. Achei a definição de um executivo, aliás um dos mais interessantes que participaram dessa discussão, a melhor até hoje: “Acredito na discussão, na troca de idéias dentro do processo criativo, mas existe um momento em que eu preciso estar sozinho, nem que seja no banheiro!”. Adorei!

Assim como adorei participar do evento. Todos sabem que para me tirar da cozinha é um verdadeiro sacrifício. Mas devo admitir que, nesse caso, pelo convite ter vindo de uma organização que admiro, não consegui recusar e estava nervosa e ansiosa. Num certo momento antes de começar, uma especialista na área de consultoria para empresas me perguntou se eu tinha experiência nesse tipo de coisa. Eu respondi: “Já fiz algumas vezes, mas é sempre bom lembrar que o meu lugar é na cozinha! Fora dela estou propensa a errar o tempero!”.

A verdade é que foi uma experiência enriquecedora em muitos aspectos. O da troca principalmente, seja de posição, idéias ou reflexões. Lá pelas tantas, depois de algumas horas de conversa, já estava me sentindo em casa. Bom sinal, afinal não existe desafio maior do que se fazer sentir tão confortável quanto em casa estando-se fora dela!

Sendo assim, mesmo fora da minha - a cozinha - acho que não errei muito no tempero. Na verdade foi extremamente proveitoso, como uma degustação às cegas, nitidamente deliciosa! Estou até começando a sentir saudades da equipe “de cozinha” altamente qualificada com a qual tive a honra de trabalhar por algumas horas!

Até!
28/09/2007 ..

Merecimento...



Hoje acordei mais tarde. Não sei se foi por causa da ressaca da noite de ontem – ressaca boa, fomos eleitos o melhor restaurante contemporâneo de 2007! – ou porque perdi a hora mesmo!

Cheguei de mansinho na cozinha e avistei a minha avó fazendo movimentos com a colher por cima de uma panelinha. Movimentos leves, suaves, quase como os que os pintores fazem quando traçam seus caminhos quadro afora. Fiquei de longe observando. Renata, nossa querida assistente, fazia o mesmo: observava, sorria e se encantava.

Cheguei mais perto, dei um beijo de bom dia, ela me respondeu, mas não parou de fazer o que não estava terminado. Olhei para dentro da panelinha e avistei uma pintura! Filés de um peixe muito branco, alvo, cristalino, delicadamente dispostos no fundo de uma panelinha. Simetricamente dispostos, sem que um invadisse o espaço do outro. A colher que se movimentava acima deles, distribuía com precisão quantidades exatas de um molho de tomates, que eu bem conheço...

Terminada a obra, ela me abraçou, encheu os olhos d´água e me disse: “Parabéns por mais esse reconhecimento, Deus sabe o quanto você merece”.

Acredito que trabalhar duro e com amor diariamente tenha lá as suas compensações. Gratas compensações, certas vezes. Mas a graça de ver uma cena dessas numa sexta-feira pela manhã, essa sim, me faz acreditar que Deus acha mesmo que mereço ser feliz! Para outras coisas existe Mastercard!

Até!
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